Maria sempre foi uma mulher forte e independente, mas por trás de sua fachada confiante, havia uma batalha interna que poucos conheciam. Anos atrás, ela havia vivido uma experiência traumática que a deixou com cicatrizes invisíveis. Embora tenha se esforçado para seguir em frente, o trauma a acompanhava, influenciando suas interações e relacionamentos.
Quando conheceu Lucas, um homem gentil e atencioso, Maria sentiu uma atração instantânea. No entanto, à medida que o relacionamento se aprofundava, ela começou a sentir-se cada vez mais ansiosa com o simples ato de tocar ou ser tocada. Um abraço que deveria ser reconfortante transformava-se em um campo de batalha emocional, repleto de memórias dolorosas e medos não resolvidos.
Lucas, percebendo a hesitação de Maria, tentava ser compreensivo, mas a falta de conexão física entre eles gerava frustração e insegurança. Maria desejava se abrir, mas a ideia de permitir que alguém se aproximasse fisicamente a deixava paralisada. A luta interna de Maria ilustra como o trauma pode se manifestar nas relações interpessoais, dificultando a aceitação do contato físico e a construção de intimidade. Essa dinâmica complexa é um tema que permeia as discussões sobre trauma e recuperação, destacando a importância de compreender as experiências individuais ao lidar com as consequências emocionais de eventos passados.
A dinâmica do trauma é uma questão complexa que influencia profundamente a forma como nos relacionamos. Muitas pessoas tendem a se envolver em relacionamentos que refletem seus traumas passados, buscando familiaridade mesmo que essa familiaridade seja marcada por padrões de violência ou dor.
O cérebro humano é projetado para buscar padrões e segurança. Quando vivemos experiências traumáticas, especialmente na infância, essas vivências moldam nossas percepções e reações emocionais. O que deveria ser uma busca por amor e conexão muitas vezes se transforma em uma repetição de ciclos tóxicos. Isso acontece porque, mesmo que a dor seja intensa, o cérebro reconhece esses padrões como “conhecidos” e, portanto, menos assustadores do que o desconhecido.
Esses padrões se manifestam em escolhas de parceiros, comportamentos e dinâmicas relacionais. A familiaridade com a dor pode criar uma sensação de conforto distorcida, levando-nos a evitar relacionamentos saudáveis que desafiem nossas crenças internas. Muitas vezes, a ideia de um relacionamento estável e amoroso parece ameaçadora, pois requer vulnerabilidade e a possibilidade de enfrentar feridas não curadas.
Reconhecer essa dinâmica é o primeiro passo para a mudança. Buscar terapia ou apoio emocional pode ajudar a desvendar os padrões enraizados e promover um processo de cura. É essencial aprender a redefinir o que é familiar, buscando novas experiências que tragam segurança e amor genuíno, ao invés de dor e repetição. Ao entender e confrontar nossos traumas, temos a oportunidade de reescrever nossa história e construir relacionamentos mais saudáveis e satisfatórios.
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- Ogden, P., Minton, K., & Pain, C. (2006). Trauma and the Body: A Sensorimotor Approach to Psychotherapy. Norton & Company.
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Essas fontes oferecem uma base sólida de pesquisa sobre a dinâmica do trauma e suas implicações nos relacionamentos.













